Musk diz que foi 'tolo' e que chefes da OpenAI o manipularam a doar milhões

Em depoimento nesta segunda-feira, o bilionário afirmou ter sido induzido a financiar a organização sem fins lucrativos sob falsas promessas, vendo-a depois se transformar numa gigante comercial sob comando de Sam Altman
SÃO FRANCISCO — Em um depoimento que combinou franqueza incomum e amargura contida, Elon Musk admitiu nesta segunda-feira (28), em tribunal federal na Califórnia, que agiu como “um tolo” ao confiar na OpenAI e no seu CEO, Sam Altman. O bilionário, que foi cofundador da organização em 2015, alega que foi enganado ao desembolsar milhões de dólares para uma entidade que se comprometera a desenvolver inteligência artificial de forma aberta e sem fins lucrativos — mas que, segundo ele, se transformou numa empresa comercial fechada, alinhada à Microsoft.
“Acreditei na promessa de que seria uma organização de código aberto, focada no bem da humanidade. Fui ingênuo. Fui um tolo”, declarou Musk, visivelmente irritado, ao juiz Anthony R. Mercado.
A promessa e a virada
A OpenAI foi fundada em 2015 como uma entidade sem fins lucrativos, com a missão declarada de desenvolver IA segura e benéfica para a humanidade, livre de pressões comerciais. Musk, então um dos maiores financiadores iniciais, investiu cerca de US 250 milhões, em valores corrigidos), segundo documentos apresentados ao tribunal.
Contudo, em 2019, a organização criou uma subsidiária com fins lucrativos (OpenAI LP) para atrair capital e talentos, permitindo investimentos bilionários da Microsoft. Musk deixou o conselho em 2018, antes da reestruturação, e alega que só depois compreendeu a extensão do que classifica como “quebra de confiança”.
“Eles usaram meu dinheiro e meu nome para criar credibilidade. Disseram que o lucro nunca seria o objetivo. Hoje, a OpenAI vale dezenas de bilhões e está completamente fechada. O ‘open’ do nome é uma piada de mau gosto”, afirmou.
Provas e contraditas
A defesa de Sam Altman e da OpenAI apresentou e-mails internos em que Musk teria concordado, em 2017, com a necessidade de uma estrutura com fins lucrativos para competir com o Google. Em um dos documentos, o próprio Musk escreveu: “Precisamos de muito mais capital do que uma entidade sem fins lucrativos pode levantar. Ou seguimos esse caminho ou morremos.”
A equipe jurídica da OpenAI argumenta que Musk foi informado das mudanças, participou das discussões iniciais e só passou a criticar o modelo depois que deixou a empresa para focar na Tesla, na SpaceX e, mais tarde, na sua própria rival xAI.
Musk rebateu: “Fui persuadido de que a estrutura com fins lucrativos seria temporária e limitada. Não foi. Foi uma armadilha.”
Impactos e próximos passos
O caso, que começou em março de 2024 com uma ação judicial por quebra de contrato, violação de dever fiduciário e concorrência desleal, ganhou contornos dramáticos agora com o depoimento pessoal de Musk. Especialistas acreditam que, independentemente do resultado, o processo expõe um dilema central da era da IA: como conciliar inovação aberta com a escala financeira exigida pelos modelos mais avançados?
“Musk pode não vencer tecnicamente a ação, mas já venceu no tribunal da opinião pública ao personificar o confronto entre o idealismo do Vale do Silício e sua inevitável comercialização”, analisa a professora de direito tecnológico da Stanford, Elena Vargas.
A OpenAI, por sua vez, emitiu uma nota sucinta: “Lamentamos que um dos nossos cofundadores tenha se sentido assim. Mas os fatos e documentos mostram que ele apoiou a necessidade de uma estrutura sustentável enquanto fez parte da organização.”
O julgamento continua nesta terça-feira, com previsão de oitiva de Sam Altman. Se Musk vencer, a OpenAI pode ser forçada a reverter parte da sua estrutura comercial ou pagar indenizações bilionárias. Se perder, o bilionário pode arcar com as custas judiciais e ver enfraquecida sua narrativa de defensor da IA ética.
Até lá, fica a frase que promete ecoar nos corredores da tecnologia: “Fui um tolo”. Dita por um dos homens mais ricos e influentes do mundo, ela resume a ironia de quem ajudou a plantar uma das árvores mais valiosas da história recente — e agora alega



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