Token Maxxing: nova febre eleva gasto com IA e gera saudade de demitidos
(Token Maxxing: a nova febre que eleva gastos com IA e gera saudade dos colegas demitidos
Funcionários da tecnologia são pressionados a consumir cada vez mais tokens de inteligência artificial para provar produtividade enquanto os que ficaram pelo caminho buscam na internet respostas sobre o futuro.
Por Nome do Jornalista. Especial para Tilt/UOL.
Imagine a cena: você entra no escritório, liga o computador e, antes mesmo de checar seus e-mails, abre um painel que mostra quantos tokens de IA você consumiu nas últimas 24 horas. Seu nome está em um ranking ao lado dos colegas. Quanto maior o número, melhor. Parece ficção científica? Pois isso já é realidade no Vale do Silício.
Bem-vindo ao Token Maxxing, a mais nova obsessão das big techs que está transformando a forma como medimos produtividade, gastando fortunas em inteligência artificial e deixando no ar uma pergunta incômoda: o que aconteceu com as pessoas que foram demitidas para que essa festa dos tokens pudesse começar?
O que é Token Maxxing?
A febre tem um nome curioso e uma lógica perversa. Token é a unidade básica de processamento dos modelos de IA. Cada palavra ou fragmento de palavra consumido por ferramentas como ChatGPT, Claude ou Gemini equivale a um token. Maxxing vem de maximizar. Juntando tudo: a prática de consumir o máximo possível de tokens de IA para demonstrar produtividade.
Token Maxxing é essa febre do Vale do Silício de produzir muita coisa com inteligência artificial, mas produzir de maneira insana mesmo, explica Diogo Cortiz, especialista em tecnologia, no podcast Deu Tilt do UOL. Surgiu essa febre de eu colocar inteligência artificial para produzir, e eu vou contabilizando quanto de token eu processei. Isso está virando um sinônimo de produtividade.
Na prática, funcionários competem para ver quem consome mais tokens. Empresas criam rankings internos. E os fornecedores de IA, OpenAI, Anthropic, Google, assistem felizes ao show, pois cobram exatamente por cada token consumido.
Os números absurdos da corrida dos tokens
Para entender a escala da loucura, vale olhar os números que vieram a público nos últimos meses. Dentro da Meta, um painel interno chamado Claudeonomics, ironicamente batizado em referência ao modelo da concorrente Anthropic, expôs o tamanho do apetite por IA. O ranking listava os 250 maiores consumidores de tokens entre os mais de 85 mil funcionários da empresa.
Em apenas 30 dias, o consumo total na plataforma ultrapassou 60 trilhões de tokens. O funcionário no topo da lista gastou sozinho 281 bilhões de tokens. Fazendo as contas com base nos preços de mercado, cerca de 5 dólares por milhão de tokens, esse único funcionário custou à Meta cerca de 1,4 milhão de dólares em um mês. O custo total da brincadeira para a empresa foi de aproximadamente 300 milhões de dólares.
A brincadeira, no entanto, saiu do controle. Após a repercussão negativa, o ranking foi derrubado. A Meta afirmou que não usa o consumo de tokens como principal métrica de avaliação de desempenho, mas funcionários relataram que a pressão para consumir era real e vinha de cima.
A saudade dos que ficaram pelo caminho
Enquanto a farra dos tokens acontece dentro das big techs, há um elefante na sala, ou melhor, uma sala vazia. O movimento de demissões em massa no setor de tecnologia não parou. Só neste ano, as grandes empresas acumulam mais de 100 mil profissionais demitidos em todo o mundo.
A relação entre os cortes e o Token Maxxing é direta. A lógica corporativa, expressa abertamente por executivos como o CTO da Meta, Andrew Bosworth, é a seguinte: se um engenheiro que custa 500 mil dólares por ano pode se tornar 5 a 10 vezes mais produtivo consumindo 250 mil dólares em tokens anuais, por que manter tantos funcionários?
Se tem alguém que é derrotado pelo Token Maxxing, essa token mania é sem dúvida o trabalhador, afirma Helton Simões Gomes, também no podcast Deu Tilt. Além disso, ele tem que lidar com o desemprego batendo à porta, porque as empresas estão reduzindo a força de trabalho para substituir por inteligência artificial.
E são justamente esses trabalhadores demitidos que agora vagam pela internet em busca de respostas. Fóruns como Reddit, comunidades no Discord e grupos do WhatsApp fervilham com relatos de ex-funcionários de big techs tentando entender o que aconteceu. Muitos descobriram que foram substituídos por agentes de IA que custam uma fração do seu salário anual em tokens. Outros buscam recolocação e se deparam com um mercado que agora exige proficiência exatamente nas ferramentas que os tornaram descartáveis.
A pressão para performar: nasce a ansiedade do token
Para quem ainda tem emprego, a situação não é muito mais confortável. A pressão para consumir tokens gerou até um novo termo: ansiedade do token. Funcionários se sentem compelidos a gastar tokens freneticamente para mostrar que estão produzindo, mesmo que os resultados não acompanhem o consumo.
Um desenvolvedor ouvido pela reportagem, que pediu anonimato para não comprometer seu emprego, descreveu a rotina: eu acordo e a primeira coisa que faço é verificar meu consumo de tokens do dia anterior. Se estiver abaixo da média do time, já começo o dia tenso. Pareço um corredor de esteira que não pode parar. Informação pessoal.
A situação chegou a tal ponto que alguns profissionais estão inflando artificialmente seus números. Na Amazon, funcionários admitiram ao Financial Times que usam ferramentas internas de IA para automatizar tarefas triviais e redundantes, como responder e-mails que não precisavam de resposta ou revisar códigos já aprovados, apenas para aumentar seus indicadores de uso.
Há relatos ainda mais graves. Funcionários da Meta teriam criado scripts que fazem agentes de IA conversarem entre si em loops infinitos, gerando tokens sem qualquer propósito produtivo. Um funcionário descreveu a prática como queimar gasolina para ver a agulha do marcador subir.
O lado vencedor: as empresas de IA
Enquanto funcionários e ex-funcionários sofrem os efeitos colaterais da febre, há quem esteja lucrando rios de dinheiro com o Token Maxxing. As grandes fornecedoras de modelos de IA, OpenAI, Anthropic, Google, são as maiores beneficiárias. Seu modelo de negócios é direto: quanto mais tokens consumidos, mais faturam.
O caso mais emblemático é o de Peter Steinberger, criador do OpenClaw, um projeto open source de automação de software. Steinberger recebeu uma fatura mensal da OpenAI de 1,3 milhão de dólares, integralmente paga pela própria OpenAI, que subvenciona desenvolvedores para incentivar o consumo. Seu projeto consumiu 603 bilhões de tokens em 7,6 milhões de solicitações em 30 dias, usando principalmente o modelo GPT 5.5.
Steinberger defendeu o gasto: posso desativar o modo rápido e fica 70 por cento mais barato. Isso se aproxima do custo de um único funcionário. Mas críticos apontam que a conta só fecha porque os laboratórios de IA estão artificialmente subvencionando os preços para ganhar participação de mercado. Se os preços subirem para refletir o custo real, essa conta explode, alerta um investidor ouvido pela reportagem.
O debate: produtividade ou desperdício?
A febre do Token Maxxing reacendeu um debate antigo no mundo corporativo, formalizado pela chamada Lei de Goodhart: quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida. Em outras palavras, ao transformar o consumo de tokens em KPI, as empresas incentivam exatamente o comportamento que queriam evitar: desperdício em vez de eficiência.
Críticos apontam que não há correlação direta entre consumo de tokens e produtividade real. Uma tarefa simples pode ser resolvida com poucos tokens se bem planejada, enquanto um agorismo mal programado pode consumir milhões de tokens em loops infinitos sem entregar resultado algum.
Outcome maxxing é melhor que token maxxing, escreveu no LinkedIn Yamini Rangan, CEO da HubSpot. Mais importante do que consumir tokens é ver que resultados você está produzindo.
Ainda assim, a pressão para aderir à nova métrica é imensa. Jensen Huang, CEO da Nvidia, declarou em um podcast que se um engenheiro de 500 mil dólares por ano não consome pelo menos 250 mil dólares em tokens anuais, algo está errado.
O futuro: mais tokens, mais demissões?
A tendência, segundo especialistas, é que o Token Maxxing se espalhe para além do Vale do Silício. Áreas como administrativo, financeiro e atendimento ao cliente devem ser as próximas a adotar lógicas semelhantes de medição por consumo de IA.
Para os trabalhadores, o cenário é desolador. A tecnologia que prometia reduzir a jornada de trabalho para três dias por semana está, na prática, gerando uma corrida insana por consumo e deixando um rastro de demitidos que buscam na internet entender o que aconteceu com suas carreiras.
Enquanto isso, os tokens continuam a correr. A conta chega no fim do mês. E a saudade dos colegas que ficaram pelo caminho só aumenta.
Com informações de Tilt/UOL, The Information, Financial Times e Fortune.



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