Órgão regulador financeiro do Japão se reunirá com principais bancos para discutir modelo de IA Mythos
TÓQUIO, 22 Abr (Reuters) – A Agência de Serviços Financeiros do Japão (FSA, na sigla em inglês) convocou os maiores bancos do país para uma reunião na sexta-feira (25), com o objetivo de avaliar os impactos e os desafios regulatórios relacionados ao modelo avançado de inteligência artificial Mythos, desenvolvido pela empresa norte-americana Anthropic.
A informação foi confirmada nesta quarta-feira pela ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, durante coletiva de imprensa em Tóquio.
Segundo a ministra, o encontro terá caráter técnico e sigiloso, reunindo representantes do Megabank, Mitsubishi UFJ Financial Group (MUFG), Sumitomo Mitsui Financial Group (SMFG) e Mizuho Financial Group, além de especialistas em segurança cibernética e regulação financeira.
“A rápida evolução dos modelos generativos de IA apresenta oportunidades significativas para o setor financeiro, mas também levanta preocupações legítimas sobre governança de dados, estabilidade sistêmica e possíveis vieses algorítmicos. O Mythos, em particular, tem demonstrado capacidades avançadas de raciocínio que exigem uma análise cuidadosa”, declarou Katayama.
A Anthropic, sediada em São Francisco, lançou o Mythos no início deste ano como um sistema de IA “auto-consistente” — termo usado pela empresa para descrever a capacidade do modelo de manter coerência lógica em cadeias complexas de raciocínio. Diferentemente de modelos convencionais, o Mythos foi treinado com técnicas de aprendizado por reforço em larga escala, o que, segundo críticos, pode torná-lo menos previsível em cenários de alta pressão, como mercados financeiros.
O Japão, que busca se posicionar como líder em inovação responsável em IA, tenta equilibrar dois movimentos opostos: de um lado, o incentivo à adoção de tecnologias disruptivas pelos bancos para otimizar operações, gestão de risco e atendimento ao cliente; de outro, a necessidade de evitar episódios como oscilações bruscas de mercado causadas por decisões automatizadas sem supervisão humana.
Fontes ouvidas pela Reuters sob condição de anonimato indicaram que a FSA está especialmente preocupada com três aspectos do Mythos: (1) sua capacidade de gerar análises de crédito autônomas sem rastreabilidade total, (2) o risco de ataques adversários capazes de induzir o modelo a decisões errôneas e (3) a concentração de dependência tecnológica em um fornecedor estrangeiro.
O Banco do Japão, em comunicado interno ao qual a Reuters teve acesso, já havia alertado no mês passado que “modelos de fronteira como o Mythos podem amplificar riscos operacionais em instituições financeiras sistemicamente importantes”.
Procurada, a Anthropic afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa na Ásia, que “acolhe com satisfação o diálogo construtivo com reguladores japoneses” e que “o Mythos foi desenvolvido com camadas adicionais de alinhamento e monitoramento para uso em setores regulados”. A empresa não confirmou se enviará representantes à reunião de sexta-feira.
Analistas veem o movimento do Japão como um prenúncio do que outros países do G7 podem adotar. “Tóquio está agindo rápido porque sabe que os bancos já estão testando o Mythos internamente, muitas vezes sem protocolos claros”, disse Yuki Tanaka, especialista em regulação de IA pelo Instituto de Pesquisa Econômica de Tóquio. “A reunião de sexta-feira pode definir as primeiras diretrizes setoriais para uso de IAs avançadas no sistema financeiro global.”
A ministra Katayama afirmou que, após a reunião, a FSA divulgará um resumo das conclusões “respeitando segredos comerciais e operacionais”, e que novas orientações formais devem ser publicadas até o final do segundo trimestre.



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